Por Iara Cordeiro

No momento em que o país ultrapassa a marca de 60 mil mortes pela pandemia do novo coronavírus outro debate que permeia o noticiário – também importante para o futuro do país – é o adiamento das eleições de 2020.

A cinco meses das eleições municipais, deveríamos estar discutindo a troca (ou manutenção) dos comandos das Prefeituras dos 5.570 municípios e suas Câmaras Municipais, como foram as gestões e mandatos e que propostas novas estão colocadas para o futuro de cada localidade. No entanto, hoje estamos em grande parte do tempo preocupadas com a prevenção do contágio, o cuidado dos infectados, o impacto na economia e quando tudo voltará ao “normal”.

Discutir o adiamento das eleições no meio de uma crise sanitária parece ser um assunto menor, mas não é. Pensar nos impactos para a representatividade feminina parece ser um assunto ainda menor, mas também não é.

Violência

Durante o período de isolamento social, as denúncias de violência contra a mulher aumentaram 40%, como mostram os dados do Ligue 180 e do relatório da ONU. Além do aumento, mais de 7 milhões de mulheres perderam seus empregos nesse período. Outro ponto importante mostra que o trabalho remoto fez não apenas aumentar a carga de trabalho doméstico que recai sobre a mulher (já que as escolas estão paralisadas), mas também o cuidado com as pessoas enfermas. A relação entre mulher e cuidado também é percebido na característica dos profissionais de saúde que estão no combate direto à pandemia, já que 90% das profissionais de enfermagem são mulheres.

Nesta semana teremos a definição pela Câmara dos Deputados sobre o adiamento das eleições. No entanto, outros pontos ainda carecem de atenção: como se dará a campanha em meio ao isolamento social; como manter a proteção das pessoas que irão trabalhar no dia das eleições e também aquelas que irão votar; se o Fundo Eleitoral será ou não destinado para o combate à pandemia; se a propaganda eleitoral partidária gratuita (revogada na reforma eleitoral de 2017) deverá voltar, já que neste isolamento as pessoas estão consumindo muito mais o noticiário da TV, como aponta um estudo da ANCINE.

Representatividade

E por que a representatividade feminina importa neste tema? Primeiro porque a falta de representação das mulheres reflete em distorções na dinâmica democrática. É necessário que as mulheres, como um dos grupos mais afetados pela pandemia, participem do debate e façam parte da solução.

Um exemplo de como a atuação da mulher é importante foi a aprovação do auxílio emergencial, em que o esforço da Bancada Feminina da Câmara dos Deputados permitiu mostrar como a pandemia afetava muito mais as mulheres. Com isso, foi possível que mães solo pudessem receber duas cotas do auxílio emergencial.

Um outro ponto que merece atenção é que os países liderados por mulheres conseguiram, em diferentes contextos, ter melhores respostas no combate à pandemia. Presume-se que isso se dá porque as mulheres em geral são criadas em um ambiente cultural diferente dos homens, com atenção ao cuidado e à proteção do grupo; além de se exigir delas que sejam mais qualificadas do que os homens para chegarem aos postos de comando.

Isso, de algum modo, imprime sua atuação política, pois as mulheres tendem a não priorizar a economia acima dos demais temas. Confiam na ciência e na tecnologia e não temem ouvir e seguir especialistas no assunto. Não à toa, os países que estão liderando o números de infectados e mortos são liderados por homens que não possuem essas características.

Este será um período eleitoral atípico, sem os eventos tradicionais de pré-campanha e de campanha, sem o corpo a corpo com o eleitor e em um momento onde se coloca na balança o que é prioridade ou não.

Neste momento de incertezas, onde nem os especialistas conseguem projetar o impacto final da doença no país, é importante que as propostas apresentadas pelas candidatas apontem soluções que sejam suficientemente relevantes a ponto de estimularem eleitores e eleitoras a saírem de suas casas para votar, mesmo durante a pandemia. E nesse ponto as eleitoras são fundamentais, já que são 52% do eleitorado. Caso contrário, veremos cada vez mais uma população desinteressada e afastada dos processos de participação política, o que é prejudicial para o fortalecimento da democracia no Brasil. 

Iara Cordeiro é especialista em Justiça e Autonomia das Mulheres na América Latina e Caribe e consultora eleitoral da Aliá Consultoria Política para Mulheres.

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